domingo, 28 de fevereiro de 2010

Desde o ventre


"Respondeu-lhe o Senhor: Duas nações há no teu ventre, dois povos, nascidos de ti, se dividirão: um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço." (Gênesis 25:23)

Não existem acasos para Deus. Nosso Criador é pragmático. Ainda nos pequenos detalhes do mundo encontramos o toque de Sua mão. Em cada ser criado, em cada homem formado, um propósito, uma visão, um destino. Embora muitos nunca cheguem a descobrir seu papel na história, o propósito de Deus permanece em cada vida criada.

Sonhos plantados no coração, talentos herdados não se sabe de quem, habilidades adquiridas ao longo das experiências da vida, todos indicadores de um planejamento minucioso da parte de Deus. Eles são como placas sinalizadoras ao longo de uma estrada que nos informam qual caminho devemos seguir.

Muitas vezes, porém, as circunstâncias nos forçam a tomar caminhos diferentes, a abandonar os sonhos e projetos do coração. Empregos, salários, concorrências, ambições, família, responsabilidades. A vida nos empurra por caminhos que não queremos, por decisões impensadas e precipitadas. Precisamos nos encaixar no sistema, agradar nossas famílias e amigos, corresponder àquilo que esperam de nós ou mesmo lutar para sobreviver no mundo moderno. E nessa loucura nosso propósito eterno se perde, nossos sonhos morrem e passamos a vida nos sentindo frustrados por aquilo que nunca fizemos, pelo potencial que nunca alcançamos. Os planos traçados pelo Criador para nossas vidas tornam-se ilusão, como uma tarde nebulosa onde enxergamos as montanhas ao longe, mas não temos a certeza se são montanhas ou nuvens.

Talvez não exista tragédia maior do que não alcançarmos aquilo para que fomos criados. É como uma Ferrari, arquitetada da forma mais brilhante para atingir as maiores velocidades, servindo de transporte escolar. Alguém diria: "Mas que desperdício! Você não sabe que isto é uma Ferrari? Essa máquina deveria estar correndo e não transportando crianças a 40km por hora!" Com toda a razão. Mas o que dizer de homens arquitetados para grandezas presos em mesas de escritório? Que dizer de vidas desperdiçadas em propósitos temporários sem atingir o objetivo para o qual foram criadas?

"Clama a mim, e responder-te-ei; anunciar-te-ei coisas grandes e ocultas, que não sabes." (Jeremias 33:3)

Só há uma forma de escaparmos desse destino cruel: nos voltarmos para o nosso Criador. Mesmo aqueles que já O conhecem precisam buscá-lo quanto ao Seu plano para suas vidas. Muitos tem arriscado simplesmente caminhar sem destino, para ao fim do caminho descobrirem que não chegaram a lugar nenhum. Muitos tem medo de perguntar, receio de receber uma resposta não agradável.Muitos simplesmente estão confortáveis demais com suas vidas para mudar algo agora. E mesmo aqueles que buscam e recebem direção, precisam ainda da coragem e da fé necessária para segui-la.

Não há nada mais triste do que dons e talentos desperdiçados. Mais ainda pelo fato de que isso será tudo o que importará no dia em que nos encontrarmos com o Senhor. Ninguém poderá usar a desculpa de "Ah, eu não sabia", quando sequer se importaram em consultar ao Criador quanto à sua vida. Que desperdício descobrir que não vivemos, que grande dor o desperdício de uma vida.

"Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações." (Jeremias 1:5)

"Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça" (João 15:16a)

"Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda." (Salmo 139:16)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Atreva-se a crer!


"Jesus, fitando neles o olhar, disse: Para os homens é impossível, contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível." (Marcos 10:27)

Haveria algo impossível para Deus? Todos parecem crer nisso, que não há nada impossível para o Criador, que Ele pode fazer todas as coisas, que seu poder é ilimitado.

Sabendo disso, uma das revelações que mais me impressiona e surpreende na bíblia está em descrita em 2 Coríntios 6:16 - "Que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos? Porque nós somos santuário do Deus vivente, como ele próprio disse: Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus e eles serão o meu povo."

Nesta afirmação, Deus garante a Sua presença em meio ao Seu povo. Este foi o grande objetivo da nossa redenção, que Deus pudesse novamente estar conosco e em nós, como esteve com Adão antes da queda. Que pudéssemos novamente estar em comunhão com nosso Criador e desfrutar das delícias e dos benefícios da Sua presença.

"Habitarei e andarei" foram as expressões usadas por Ele. O meu grande questionamento é: Que diferença este fato deveria fazer nas nossas vidas? Se a presença de Deus habita em nós e está entre nós, seria isto um diferencial entre as nossas vidas e os demais povos?

Não somos pessoas ordinárias. O fato de a presença de Deus estar em nós nos distingue. Não vivemos como as demais pessoas e nem estamos sujeitos aos mesmos fracassos e fatalidades, pois a presença de Deus está em nós! Caso assim fosse, que diferença faria a presença de Deus em nossas vidas? Se não há diferença entre nós e os ímpios naquilo a que estamos sujeitos, então a presença de Deus em nossas vidas não faz qualquer diferença.

Quando Israel reconhecia a presença do Senhor entre eles, era revestido de uma ousadia que o levava a enfrentar inimigos muito maiores do que ele. Quando Davi reconheceu que Deus era com ele, não estremeceu diante da força de Golias, pois confiava na grandeza do Deus que lutaria sua batalha e o faria prevalecer. Gideão se tornou ousado e enfrentou o exército inimigo com um número limitado de homens, pois tinha a certeza de Deus ao seu lado. Israel marchou contra as imponentes muralhas de Jericó e as derrubou na força do seu Deus, pois reconhecia a sua presença entre eles. Moisés caminhou rumo ao mar na certeza de que Deus o faria se abrir, pois estava entre eles. Daniel entrou na cova dos leões e descansou na certeza da presença de Deus em sua vida, assim como Sadraque e seus companheiros confiaram nesta mesma presença ao serem lançados na fornalha. Miriã dançou alegremente e regozijou-se ao perceber a presença do Senhor em meio ao Seu povo. Elias desafiou os profetas de Baal firmado nessa confiança, de que Deus estava com ele e não falharia. Pedro saiu do barco e caminhou nas águas, pois estava consciente da presença do seu Salvador. Paulo não se assustou com as prisões onde foi lançado, pois não tinha dúvidas da presença de Deus em sua vida, presença que se manifestou sacudindo os grilhões que o prendiam e libertando a todos ao seu redor. Aqueles que foram até Jesus ousaram crer que a presença de Deus estava entre eles para os abençoar.

Atreva-se a crer! Vivemos hoje em meio a temores e impossibilidades e esquecemos que o mesmo Deus habita entre nós!

Não havia enfermos ou estéreis em Israel, pois a presença de Deus em meio a eles prometia livramento de doenças (Êxodo 23:25). Vivemos em meio a temores de catástrofes, quando Davi ousadamente declarou as intenções de Deus para o seu povo no Salmo 91:10 - "Nenhum mal te sucederá, praga nenhuma chegará à tua tenda."
Medimos nossas circunstâncias e nossos recursos para calcular nosso sucesso e aquilo que poderemos alcançar, e, ao fazermos isso, ao nos limitarmos às nossas próprias capacidades e recursos, falhamos em considerar os recursos de Deus, em reconhecer a Sua presença ilimitada em nós e o Seu favor posto à nossa disposição.

Atreva-se a crer! Haverá algo impossível para Deus? Entretanto vivemos em nossas impossibilidades, como se Deus não habitasse em nós, como se a Sua boa mão não estivesse à nosso favor, como se servíssemos a um Deus mesquinho e indisposto a ajudar. Ao estudarmos nossas circunstâncias e como poderemos prevalecer ou alcançar mudanças, deixamos de considerar milagres, deixamos de visualizar que Deus não está limitado naquilo que é possível, mas que tudo no mundo está à Sua disposição para ser usado a nosso favor. Perdemos de enxergar a grandeza de Deus ao considerar os meios naturais, as formas racionais e lógicas com as quais as coisas podem acontecer e esquecemos o fator sobrenatural com o qual Deus trabalha. Nos espantamos ao ouvirmos falar de milagres, quando eles deveriam fazer parte das nossas expectativas como povo de Deus. Milagres são o mover da mão de Deus a nosso favor, e Ele está em nós. Se não consideramos a possibilidade de milagres, de favor sobrenatural em nossas vidas e circunstâncias, no nosso dia-a-dia na presença de Deus, em que somos diferentes dos incrédulos?

Atreva-se a crer! Creia que Deus traz à existência aquilo que a sua mente não é capaz de considerar. Creia que não há limites para Deus e que a presença dele está em você, logo não há limites naquilo que Ele pode fazer em sua vida. Considere o sobrenatural, considere a grandeza daquele que habita entre nós. Deus sempre terá prazer em superar as nossas expectativas e manifestar a Sua glória na vida do Seu povo.

Quando esgotarmos nossas mentes em busca de saídas e não conseguirmos encontrar, ergamos nossos olhos a Deus! Inspire-se naquilo que Ele demonstrou na bíblia, na vida dos homens que se atreveram a crer que a presença de Deus era real e estava a seu favor. Considere que os recursos à disposição de Deus são tão ilimitados quanto a sua própria pessoa.

Atreva-se a crer! Tudo no universo está à disposição de Deus para nos abençoar. Não há monte que não estremeça ao som da Sua voz ou autoridade que não se prostre ante a Sua presença. Não sejamos tímidos na nossa fé, Deus nos desafia a crer. Ele nos desafia a sermos uma geração que se levante e creia em coisas maiores, em maiores manifestações de milagres, em maiores manifestações de poder. Uma geração que não enxergue limites em Deus e naquilo que Ele pode e deseja realizar em meio ao Seu povo.

"Mas o povo que conhece ao seu Deus se tornará forte e ativo." (Daniel 11:32)

"Por que sois assim tímidos?! Como é que ainda não tendes fé?" (Marcos 4:40)

"Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai." (João 14:12)

sábado, 30 de janeiro de 2010

"Quem te fez saber que estavas nu?"

"Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo, os filhos de Israel, do Egito. Então, disse Moisés a Deus: Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel? Deus lhe respondeu: Eu serei contigo" (Êxodo 3:10-12)

Pessoas machucam e ferem. Somos extremamente marcados pelas palavras que ouvimos ao longo das nossas vidas. "Você não pode, seu cabelo é feio, você é burro, seu nariz é torto" ou então: "Você é egoísta, egocêntrico, gosta de aparecer, chamar a atenção, só pensa em você, preguiçoso, nunca vai ser nada na vida", e tantos outros defeitos e impossibilidades diversas que insistem em nos colocar. Incrível é perceber, mesmo em nossa vida adulta, como essas palavras nos marcaram, moldaram nosso caráter e se tornaram parte de nós. Em algum momento começamos a acreditar nelas e nos tornamos limitados por elas.

Quando o chamado de Deus finalmente chegou a Moisés, de repente todas aquelas palavras afloraram dentro dele: "Ah, Senhor, eu não posso! Sempre tive dificuldade pra falar, as pessoas nunca gostaram de me ouvir, sempre me disseram que eu não sou eloqüente. Quem sou eu agora pra me levantar em Teu nome e me dirigir a elas? Elas vão rir de mim como sempre riram. Não me levarão a sério e não me ouvirão. Manda a pessoa certa, Senhor, eu não. Manda aquele pastor que prega tão bem, ou aquele irmão que ora como ninguém. Manda outro, Senhor."

De onde será que surgiram todas as inseguranças de Moisés? Por que ele tinha essa imagem de si mesmo? Será que ele realmente era pesado de boca e não sabia falar? Por que Deus chamaria um homem tão incapacitado quanto ele acreditava que era?

E quanto a nós? Acaso não agimos como Moisés? Não poderia contar quantas vezes nos sentimos incapacitados, mesmo indignos, quando o chamado de Deus chega, ou quando o mero pensamento dele vem à nossa mente. "Eu?", dizemos, "Quem sou eu pra me levantar em frente à igreja e pregar? Quem sou eu pra me dirigir a um grupo e ensinar? Quem sou eu pra orar por alguém ou evangelizar um povo? Não sei falar, não tenho entendimento, não sei orar! Não estou preparado, não posso! Deus enviará as pessoas certas, eu não." Você já se sentiu assim?

Esses dias fiquei pensando de onde viriam esses sentimentos de incapacidade e inadequação. Pensamos mal de nós mesmos, enxergamos limitações, ou ainda quando pensamos que podemos, que temos capacidade, duvidamos da motivação do nosso coração, achamos que nossos motivos não são puros, que não temos um coração correto, que queremos sobressair. São tantas as condenações que acabamos por enterrar nossos talentos. Mas uma Palavra de Deus me abriu os olhos essa semana e me trouxe uma libertação sem tamanho.

Quando Adão pecou no Éden e caiu, ele tirou os olhos de Deus e olhou para si mesmo, e a primeira coisa que ele começou a enxergar foram seus defeitos. De repente se deu conta que estava nu, e isso o incomodou de tal forma que ele já não queria aparecer diante de Deus. Tudo o que ele queria era se esconder, esconder suas imperfeições e defeitos.

"Quem te fez saber que estavas nu?", foi a resposta de Deus em Gênesis 3:11. Em outras palavras: Quem te falou que havia algo de errado em você? Quem fez isso com você?

Da mesma forma Deus se dirige a nós hoje: Quem te falou que havia algo de errado em você? Quem colocou tantos defeitos em você? Quem te falou que você era inadequado? Quem te disse que você não prestava? Quem te falou que você não podia? Quem colocou essas coisas na sua cabeça?

Quando o chamado de Deus finalmente chegar nas nossas vidas, que essas palavras nos encoragem! Moisés teve muita dificuldade em aceitar tão grande missão da parte do Senhor, e penso que muitos de nós também ficaríamos balançados e temerosos. Libertar milhões de pessoas da escravidão? Enfrentar o líder mais poderoso do mundo? Já pensou se esse for o chamado de Deus pra você?

Mas então Deus surpreende Moisés com uma promessa que até hoje ecoa em meu espírito e me faz ter vontade de voar e aceitar qualquer chamado do Senhor: "Eu serei contigo!"

Deus será comigo! Que pensamento encorajador! Quem se recusaria ao chamado do Senhor uma vez feita essa promessa?

Deus nunca nos enviará sem a Sua presença seja pra onde for. A promessa da presença do Senhor em meio ao deserto para nos dar sombra, na secura para ser nossa água, na dificuldade para ser nosso socorro e nos tirar da angústia, deve ser tudo o que precisamos para passar por cima de qualquer dificuldade que insiste em querer nos fazer acreditar que não podemos, que será difícil demais, que não conseguiremos.

"Eu serei contigo!" O que é impossível quando o Criador do universo está conosco? O que pode ser difícil quando Sua presença nos acompanha de perto? Poderiam nossas dificuldades prevalecer? A presença de Deus está conosco! Ainda que em nós falte a capacidade e a eloquência, quem se ocuparia em olhar para isso quando a presença do Todo Poderoso está conosco? Somente quando olhamos para nós mesmos, como fez Adão, enxergamos dificuldades e defeitos. Mas se erguermos os olhos e enxergarmos Aquele que está conosco, como pensar em impossibilidades? Como pensar em limitações? Não há limites ou defeitos em Deus e nem naquele que se atreve a andar com Ele e crer que a Sua presença o acompanha.

"Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando, pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimará, nem a chama arderá em ti." (Isaías 43:2)

"Acaso, para o Senhor há coisa demasiadamente difícil? (Gênesis 18:14)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Quando o sono chega


"Então o levou para fora, e disse: Olha agora para o céu, e conta as estrelas, se as podes contar; e acrescentou-lhe: Assim será a tua descendência. E creu Abrão no Senhor, e o Senhor imputou-lhe isto como justiça. Disse-lhe mais: Eu sou o Senhor, que te tirei de Ur dos caldeus, para te dar esta terra em herança. Ao que lhe perguntou Abrão: Ó Senhor Deus, como saberei que hei de herdá-la? Respondeu-lhe: Toma-me uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho. Ele, pois, lhe trouxe todos estes animais, partiu-os pelo meio, e pôs cada parte deles em frente da outra; mas as aves não partiu. E as aves de rapina desciam sobre os cadáveres; Abrão, porém, as enxotava. Ora, ao pôr do sol, caiu um profundo sono sobre Abrão; e eis que lhe sobrevieram grande pavor e densas trevas." (Gênesis 15:5-12)

Sempre considerei essa passagem intrigante. Sempre tive a certeza de que havia um significado profundo na narração do que aconteceu neste momento da vida de Abraão.

Me lembrei de situações da minha infância, normalmente relacionadas a filmes de televisão que eu insistia em querer assistir, mesmo que eles começassem tarde da noite. A televisão anunciava a semana inteira a apresentação do filme e eu contava os dias. Quando o dia chegava, eu contava as horas. Finalmente era hoje e eu mal podia esperar. Meus colegas de escola também estavam empolgados, sabia que esse seria o assunto da manhã seguinte. Me deitava confortavelmente no colo de meu pai e aguardava o momento. Apenas mais algumas horas. Então algo inesperado acontecia. Começava a sentir um terrível sono, sono de quem acordava cedo todos os dias, sono que ameaçava os planos da semana inteira! Lutava contra ele com confiança, na certeza de que podia vencer, não queria perder aquele filme por nada! Na maioria das vezes, porém, o cansaço me abatia minutos antes do filme começar. Despertava após algum tempo e percebia que estava deitada em minha cama, meu pai me carregara até lá, e o filme já havia acabado. Odiava aquela sensação!

Essa história de Abraão me fez sentir algo semelhante. Me fez ponderar se existem momentos assim em nossa caminhada com Deus.

A primeira vez que ouvimos a voz de Deus e recebemos uma promessa da Sua parte é um momento mágico! Passamos a semana inteira, meses inteiros pensando naquilo, relembrando cada palavra e uma excitação cresce dentro de nós. "Deus tem planos pra mim!", pensamos, "Grandes planos!". Nos sentimos especiais, nossa vida ganha sentido, expectativas enchem nossos corações! Acredito que foi assim que Abraão se sentiu ao ouvir a voz do Senhor anos antes. Ele havia recebido grandes promesas de Deus, ele, um homem insignificante, idoso, sem filhos e casado com uma mulher estéril. "Uma grande nação!" Imagino quão grande não foi sua excitação ao ouvir tais palavras, as melhores notícias que já recebera em toda a sua vida, e vindas da boca de Deus! Imagino quantas noites Abraão passou sem dormir relembrando o que ouviu, quantos dias olhando o céu e imaginando, sonhando com o que Deus lhe dissera. Imagino sua excitação ao partir de Harã em direção às promessas que recebeu. Abraão era a imagem de um homem determinado e cheio de expectativas no coração.

Nessa passagem, porém, encontramos Abraão exatamente dez anos depois daquele momento. Dez anos caminhando por um deserto, dez anos enfrentando fome, sede, calor, frio e morte. A expectativa da promessa que recebeu parecia começar a escapar dos seus olhos. De repente aquela convicção que o fez sair tão resolutamente de Harã já não era tão presente e ele começava a acreditar que morreria sem descendência, que a promessa havia falhado. Afinal, por que até agora Deus não lhe havia dado filhos já que foi Ele mesmo quem prometeu? Aquele era um momento delicado para Abraão e Deus sabia disso.

Vemos Deus então fazer coisas incríveis nesse momento. Ao levá-lo a olhar para o céu, Deus restaurou a expectativa que Abraão precisava ter no coração, reacendendo a imagem que havia morrido dentro dele. Em seguida resolveu dar-lhe um sinal que traria a certeza que ele precisava, um sinal que ele entenderia. Era a maneira que os homens do seu tempo firmavam aliança.

É nesse momento que vejo nessa passagem a mesma luta que nós enfrentamos. Após ter feito tudo o que Deus mandou fazer, Abraão esperava. Enquanto esperava, enxotava aves de rapina, abutres que vinham roubar e estragar a certeza daquele momento. Foi então que a tarde chegou, e, após muito esperar, Abraão foi vencido pelo sono, um sono acompanhado de pavor e densas trevas.

Acredito que chega um momento em nossas vidas em que nos encontramos como Abraão. Caminhamos durante anos carregando promessas em nossos corações, diligentemente nos preparando e alegremente aguardando o cumprimento delas a qualquer momento. O tempo passa e passamos a lutar contra abutres, a resistir às vozes que insistem em nos dizer que talvez o que ouvimos nunca aconteça, que Deus mudou de idéia, que já é tarde demais ou que falhamos. Durante um longo tempo resistimos com todas as nossas forças, enxotamos aves de rapina e guardamos nosso coração, até que o inesperado acontece: o sono chega.

O que fazer quando o sono chega? Uma vontade não de desistir das promessas, mas de dormir, de parar de lutar, de acordar apenas quando tudo tiver passado e os planos de Deus finalmente estejam a ponto de se cumprir. É possível? Teríamos essa alternativa?

Esses dias tenho pensado se Deus prepara momentos de descanso para nós. Momentos em que Ele deseja que cessemos todas as nossas atividades e simplesmente descansemos nele, enquanto O observamos cumprir em nós aquilo que prometeu. Paramos de lutar contra os abutres, paramos de trabalhar e simplesmente dormimos. Não um descanso vigilante, mas um sono profundo, uma completa ausência de atividade.

Essa idéia não nos agrada muito. Durante todo esse tempo temos sido ensinados a lutar, a prosseguir, a pressionar para o alvo. A apatia que sentimos quando dormimos, longe de nos trazer descanso, é como pavor e densas trevas. Sentimo-nos perder tudo o que trabalhamos até agora, toda a disciplina, as longas horas de leitura e meditação, de dedicação à oração, sentimo-nos mergulhados em um sono profundo e isso nos apavora.

Abraão deve ter sentido o mesmo. Caiu em sono profundo após anos de espera e apavorou-se. E agora? Quem enxotaria os abutres? Viria Deus e o encontraria dormindo? E as promessas que há tanto tempo esperava? Sobreviveriam ao seu sono?

Me consola saber que Deus o encontrou no seu sono. Que enquanto Abraão dormia, Deus reafirmou a certeza dos Seus propósitos na sua vida. Que o seu cansaço e falta de forças pra continuar não fez com que Deus desistisse dos Seus planos para ele. As promessas continuavam de pé e provaram não ser mera ilusão da sua mente, pois o momento chegou em que tudo se cumpriu exatamente como Deus havia lhe falado.

Que dizer disso? Em minha caminhada tenho aprendido que Deus não brinca conosco naquilo que nos fala e que nenhuma palavra Sua deixou de se cumprir até agora. O que nos leva a crer que isso possa acontecer? Desde que estejamos dormindo em Seus braços, nossas promessas estarão seguras nele.

"Vinde a mim, todos os que estai cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve." (Mateus 11:28-30)

"Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele dito, não o fará? ou, havendo falado, não o cumprirá?" (Números 23:19)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Desejo de vencer


“Olhando firmemente para Jesus, autor e consumador da nossa fé.” (Hb. 12:2)
Essa semana uma amiga me escreveu para dizer que estava acompanhando meus textos e que admirava muito minha vontade de vencer. Não tinha pensado nisso desta forma, mas talvez ela tenha razão.

Todo mundo tem vontade de vencer, seja nas pequenas ou nas grandes coisas da vida. Fico me lembrando dos corredores de maratonas e dos grandes esforços que fazem ao longo dos anos, preparando-se para aquele momento especial de disputar uma grande corrida. Engraçado pensar nisso, pois é exatamente esta a comparação que a bíblia faz sobre a carreira que estamos a percorrer. A única diferença é que não estamos disputando uns com os outros, a carreira é individual.

“Corramos com perseverança a corrida que nos é proposta” (Hb. 12:1)

Gosto demais do livro de Hebreus, é o meu favorito do novo testamento, se é que tenho favorito. Talvez porque ele conta a história de alguns atletas e suas corridas, os esforços que fizeram para vencer e os resultados que alcançaram. O livro de Hebreus é como aquela pessoa que entrega uma garrafa de água ao corredor após alguns quilômetros de maratona, ou como o treinador que, nos intervalos entre duros rounds, enxuga o rosto do boxeador, mata sua sede, alivia suas dores e anima-o a continuar lutando.

Sou muito grata a Deus pelo livro de Hebreus. Ele conta a história de homens que tiveram uma visão de Deus (alguns apenas um vislumbre) e se entregaram a ela com tudo o que tinham. Verdadeiros atletas motivados pelo ardente desejo de conquistar recompensas divinas, as quais consideravam superiores a quaisquer prêmios humanos. Possuíram a atitude certa diante dos planos de Deus e por isso tiveram suas histórias registradas para nos servir de exemplo.

Imagino que existiram aqueles, porém, que, como o jovem rico, se recusaram a apostar todas as fichas naquilo que Deus lhes dizia. Alguns tiveram reservas, medo de seguir as direções divinas depositadas em seus corações, ou mesmo as visões e palavras recebidas ao longo de suas caminhadas cristãs. Homens como Esaú, o rei Saul e Judas, que preferiram prêmios terrenos e recompensas imediatas, e não podemos julgá-los por isso. Mas a bíblia não faz referência a eles como exemplos a serem seguidos por nós, que hoje estamos diante das mesmas escolhas que um dia eles estiveram.

Esaú teve fome e o desejo de realizar uma necessidade imediata o levou a desprezar todo o importante futuro de patriarca traçado por Deus para sua vida. Ficou de fora da linhagem do Messias e o povo de Israel não levou seu nome. Saul foi pressionado pelas circunstâncias e cobranças daqueles ao seu redor e comprometeu o glorioso reinado que Deus planejou para ele sobre Israel. Sua descendência também foi prejudicada por suas escolhas e não houve entre ela sucessor ao trono. Deus precisou levantar novo rei que o seguisse de todo coração e sem reservas. E o que dizer de Judas? Pressionado pela ganância do dinheiro fácil, trocou a honra de um trono eterno ao lado do Rei dos reis e o título de Apóstolo do Cordeiro, no desejo de ver um rei terreno se manifestar e trazer liberdade temporária a Israel. Pelo menos é o que dizem ter sido a sua intenção ao entregar Jesus por 30 moedas de prata. Caso estejam errados, tanto pior sua escolha, pois reles desejo pelo dinheiro o levou a desprezar os incomparáveis planos de Deus a seu respeito, honrarias eternas e jamais oferecidas a outros homens.

Nossas escolhas hoje determinam o rumo do nosso futuro. Escolheremos a loucura de Deus ou a sabedoria dos homens? Iremos vencer uma corrida eterna e conquistar prêmios mais preciosos que todos os tesouros da humanidade, ou correremos uma maratona terrena, disputando uns com os outros a maior sombra debaixo do sol?

Cabe a nós a decisão sobre onde aplicaremos nossos esforços nessa vida. Não sem fé, não sem a mesma loucura de convicção que moveu os grandes heróis de Deus a entregar suas vidas sem reservas aos planos de Deus rascunhados em seus corações. Enxergando o invisível, caminharam com Deus e não se embaraçaram com as ofertas dessa vida. Seus olhos estavam fitos naquele que os chamou, ainda que esse chamado não tenha passado de um mero sussurro.
O mesmo desafio nos é feito agora, todos os dias. E estes homens que nos serviram de exemplo são hoje nossas testemunhas, testemunhas que nos observam e ao mesmo tempo nos relembram que este caminho de fé já foi trilhado antes de nós. Trilhado e vencido.

Que esta certeza nos inspire a dar os passos certos e a não desistir antes de vencermos.

“Vocês não sabem que todos os que correm no estádio, apenas um ganha o prêmio? Corram de tal maneira que alcancem o prêmio. Todos os que competem nos jogos se submetem a um treinamento rigoroso, para obter uma coroa que logo perece; mas nós o fazemos para ganhar uma coroa que dura para sempre.” (1 Co. 9:24,25)

“Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.” (Fp. 3:13,14)